terça-feira, 14 de abril de 2015

A HISTÓRIA ANTES DE SER HISTÓRIA


Olá, pessoal!
Tudo bem?
Hoje resolvi fazer um post falando um pouco da minha experiência como escritora, justamente quando estou sentada na frente do computador, criando. Para quem não sabe, são inúmeros processos até a história se transformar na história que de fato é impressa no papel pronto, um trabalho minucioso e que exige muito amor, leitura e revisão, até chegar o mais perto da perfeição. 



Ainda assim, nunca estamos completamente livres do erro, sendo que outras pessoas também revisam por nós e checam tudo para ver se está certinho. Achou que era tão fácil assim? rs
Não é não.. 
O que estou postando hoje é uma prova viva de que um livro sofre por diversas alterações antes de chegar à seu formato final, revisado e certinho, do jeito que queremos. São dias e noites, são meses, muito esforço e muita concentração, tudo em prol de uma causa: o melhor formato para o leitor. E a trajetória é longa e cheia de ideias. Quer ver?
Meu primeiro livro, por exemplo, teve vários nomes antes de ser definido com A Garota de Greenwich definitivamente. Antes desse título que deu super certo, A Garota de Greenwich  era A História de Roberta Cartner, e A Londrina. Escrevi ele em cinco meses, um feito histórico para mim, mas que também me fez abdicar absolutamente de tudo (!) para me dedicar à ele. 
No final, A Garota de Greenwich combinou certinho com o livro que se tornou, com o espírito e com a mensagem que eu queria passar. 


O ENREDO


Ledo engano quem pensa que ele saiu prontinho. Principalmente o inicial, teve uma repaginada profunda e daquelas!
Tudo para não fugir do caminho que eu desejava seguir, e para ter uma pegada mais madura, apesar de ser bastante leve e ainda divertido! O livro foi escrito diversas vezes, arrumado, corrigido, revisado. Ufa! Depois dizem que escritor não é revisor.. Tem que ser, e muito!
E para quem ainda não leu, esse pequeno exemplo vai dar aquela vontade de ler  para saber como ficou. 
Para quem já leu, a diferença será hilária.. e gritante! Isso é ser escritora..rs

Espero que gostem, do fundo do meu coração.




A GAROTA DE GREENWICH- ANTES DE SER (DEFINITIVAMENTE) UM LIVRO

"Minha história começa comigo dizendo que tenho vinte anos, seios pequenos e pouca perspectiva de vida. Não sei dizer quanto ao meu futuro, porque meus dias se sucedem em um ritmo constante e porque eu nunca tentei alterar o rumo que me foi escolhido.
Eu sou uma garota normal, que tem certeza das poucas coisas que sabe e que ainda assim sabe pouco dessas coisas. Talvez o mundo me afete de alguma forma que eu acorde. Ou talvez, eu tenha medo o suficiente para não tentar acordar, e aí que eu me acordo de verdade.
Espero que, apesar disso, eu nunca perca minhas ilusões.

Roberta Campanaro é uma garota humilde que mora com seu pai e tem Thomas Lazzari como seu melhor- e único amigo. Órfã de mãe, ela vive sem muitas perspectivas, e quando é assediada por um cliente da empresa em que trabalha, decide sair dali sem pensar muito. Ela sai de casa para passar um tempo na casa de uma tia, mas a poucos quilômetros de casa, um carro desgovernado bate na sua traseira e ela entra em um desfiladeiro. Lá, ela tem um encontro inesquecível, e essa mudança afetará sua vida muito mais do que ela poderia um dia imaginar.

-Bom dia!
É segunda-feira, e meu pai espia pela fresta do meu quarto documentando seu sorriso contagiante e despertando-me antes do início de meu dia. Meu despertador me acordou, e enquanto eu ainda me preparo para mais um alvorecer dos pássaros ao longe, deixo o som gostoso bater em meu ouvido daquele modo afetado e clandestino. Ressoando uma música sensual do Guns N’ Roses, o bom timbre que atravessa meu tímpano me enraivece, mas me faz sorrir, e lembro, ainda em instância de acordar, que este foi o motivo por eu me apaixonar pelas belas manhãs de flores rosáceas e amarelas que cascateiam da minha janela como plumas de bênçãos no inverno.
Pego o aparelho entre meus dedos, tamborilando os dedos sobre sua superfície fria com maestria. Eu, Roberta Campanaro, que fui deportada pelos meus avós do Reino Unido ainda na barriga de minha mãe, e para quem o Axl Rose sempre canta tão divinamente, chamando-me de doce menina e levando-me aos céus de minha imaginação, compreendo que é segunda-feira e o mundo lá fora me espera. Quero me esconder debaixo do cobertor, mas giro, suave e fofo, o lençol para o lado. Ergo a cabeça milimetricamente. O sol já se infiltra entre o vão de minha janela, e descubro que o dia, novamente, já reinou para mim e o resto da humanidade.
“Certo. Não para os japoneses, afinal, eles estão indo dormir..”
Outra risada atravessa minha face. Que coisa magnífica poder acordar assim! Mas, lembro-me incontida, preciso levantar, vestir-me, e até ajeitar o cabelo razoavelmente e tirar as marquinhas de sono de meu rosto icônico, meu ônibus já estará me esperando longe da minha esquina. Desavença.
Levanto rapidamente. Olho-me no espelho e sorrio pela terceira vez. Até não estou tão em desagrado comigo. Sinto-me bonita, mesmo com os cabelos arrepiados, mesmo com o bafinho que sinto de minha voz, e o pijama de coelhinhos amarelos saltitantes que cola em meu corpo toda vez que decido levantar.
Sinto-me estonteante, e até o momento em que cato a escova em meio ao emaranhado de bagunça que atravessa meu quarto, e escovo meus cabelos com suavidade, tenho certeza de que tenho razão disso. Sorrio para mim no reflexo do espelho e vejo que não só meus dentes claros, mas meus olhos estão brilhando. Arrisco sussurrar baixinho que estou linda. Coro. Isso não é normal em mim. E lembro-me mais uma vez que preciso me apressar.
Vou rapidamente até o banheiro. A loção recém usada de meu pai paira no ar, e tento imaginar o quanto eu desejaria que o de um namorado também pairasse. Balanço a cabeça, esquecida, e lembro-me furiosamente que isso jamais será possível.
-Acorda, Roberta. Isso é humanamente impossível de te acontecer.
E eu sei as razões disso, embora tenha que enxugar novamente com força e raiva as lágrimas que sempre insistem em despencar. Enxugo meu rosto severamente com a toalha e uma raiva cresce dentro de mim, e enquanto abaixo meus coelhinhos até meus pés, sinto que minha urina vai se ejetar rapidamente. Apresso um pouco a descida da calcinha e o faço deliciosamente no vaso. Quando me dou conta do tempo que estou apreciando essa maravilhosa sensação, tiro o restante de minha roupa, me esquivo de minha calcinha totalmente e arqueio as mãos para trás, soltando maquinalmente o fecho da minha lingerie rosada. Tento não pensar que talvez venha a corar de vergonha de mim mesma.
Entro no box, e o vapor que sai do chuveiro me toma por completo. Ahh, que sensação maravilhosa... Procuro o sabonete com os olhos fechados, enquanto sinto a água molhar minha pele, corpo e alma totalmente. Em minhas mãos, toca um vestígio quase inexistente de glicerina. “Ótimo, ninguém se lembrou de comprar sabonete.” Tento disfarçar a dor que volta a tomar meu corpo como se fosse uma perseguição incessante, e tento refletir sobre como estava feliz a pouco tempo atrás. Meu pai grita da sala.
-Beta, seis horas!
Puta merda.. Estou atrasada. Meu ônibus passa às seis e dez.
Enxugo a espuma que havia colocado no meu cabelo com um fiapo de shampoo em promoção e esqueço que um dia precisei de um sabonete. Saio correndo dali com a toalha mal enrolada em meu corpo e um fio de água segue os passos que deixei pelo caminho.
Em cinco minutos, estou pronta, mesmo depois de cair duas vezes por cima da toalha e arrancar roupas às avulsas por sobre minha cama. “Você não tem muito tempo para pensar, Roberta. É isto mesmo que irá vestir.” E saio de lá com uma regata verde musgo, uma calça jeans desaforada e uma sandália tão velha que ainda fico me perguntando, já dentro do ônibus apinhados de pessoas que olhavam para meus pés estupefatos, em como ainda a tinha em meu armário.
Jogá-la no lixo seria a primeira coisa que faria quando voltasse para casa. Mas até lá.. Dane-se. Já estou acostumada com isso, e embora me questione em muitas vezes como não consegui ser pouco mais delicada como as outras garotas, lembro-me das razões para ser assim.
Perdi minha mãe aos cinco anos de idade. Sei que não é desculpa, mas é fato. Até ali, o mundo, e inclusive eu, achava que eu tinha salvação. Sim, eu já me dava conta da minha estranheza, e depois que perdi minha mãe, após um surto de tuberculose no trabalho, sei que me tornei ainda pior. Minhas pernas magérrimas e desengonçadas hoje são prova disso, meu jeito e minha dificuldade de lidar com as pessoas. Mais tarde, percebi que meu seio minúsculo também, quando um garoto do 5º ano me disse isso com os olhos efervescentes. Eu não o deixei colocar a mão, e acho que foi por isso que constatou essa franqueza. Minha nossa, eu tinha 11 anos! Onde essas pessoas estavam com cabeça para pensar uma coisa dessas?
Não houve dúvidas: eu me tornei a gozação do colégio, e não houve consolo que pudesse me acalmar.

Embora meu pai não concordasse com isso jamais, e dissesse que eu era a cara de minha mãe, ele simplesmente habituou-se a, toda manhã, preparar o meu sanduíche com duas fatias de pão e duas de queijo e informar-me o horário para trabalhar. Sei que, se não fosse ele, eu naturalmente perderia o horário de meu ônibus quase todas as manhãs e provavelmente já estaria fora do emprego. Mas, às vezes, eu sentia falta de um abraço mais forte dele, e frases que iam além do “São seis horas, Beta”, e do “Aqui está seu sanduíche, meu bem.” Esta era sua forma de me amar, e mesmo que eu soubesse disso, isso me arrancava outras lágrimas em segredo. Meu pais sofrera muito com a perda da minha mãe, e eu via seu rosto lindo toda vez que ele olhava para o horizonte e perguntava por respostas. Eu sabia que ele nunca as encontraria, porque a vida era assim e ninguém jamais tinha conseguido alterar o rumo das coisas."

E aí, o que acharam? Bastante diferente, né?
  


Essa é a vida de quem escreve..hehe 
Gostaram mais da original ou dessa? 
Deixem seu comentário! 


Beeijos,

Vanessa Preuss


2 comentários:

Abraham Kirquin disse...

Suas palavras foram muito verdadeiras. Ser escritor não é fácil e exige muita, muita dedicação e disciplina. E acredito que uma das partes mais recompensadoras é o retorno dado pelos leitores depois que nosso tão suado trabalho finalmente é apresentado a eles. Desejo-lhe muito sucesso nessa caminha, Vanessa! Abraço!

Vanessa Preuss disse...

Olá Abraham! Não é nada fácil! Acontece que não estamos aí para desistir, não é mesmo? Para quem se esforça tudo vem, e isso jamais é de um dia para o outro! Um beijo grande! :)